A epístola de Judas tem como tema principal, um assunto cada dia mais presente em meio à igreja. Trata desde as bênçãos do Senhor para os crentes fiéis como da vigilância as falsas doutrinas que se levantam em meio ao povo de Deus. Foi rapidamente aceita e espalhada pelos cristãos primitivos, sendo considerada a autoria de Judas meio irmão de Jesus e irmão de Tiago, denominado por ele próprio como servo de Jesus Cristo.
O autor fora surpreendido por uma série de ensinamentos florescente nas igrejas cristãs primitivas, e por isso, teve de mudar o foco da sua escrita, uma vez que pretendia falar sobre a comum salvação dos cristãos, teve que mudar o rumo para algo mais urgente e necessário ao seu tempo.
Veremos que essa mudança ensina quão necessário fora essa exortação e como ela permanece viva e atual para a igreja contemporânea.
“À todos os amados, ansiando escrever à vós, o zelo concernente da nossa comum salvação realizada por Cristo, mantenho a necessidade a escrever à vós para exortar, transmitindo de uma vez por toda à fé aos santos” (Jd. 1:3)
ARGUMENTAÇÃO TEOLÓGICA
O momento pelo qual foi escrita a carta exigia agilidade, uma vez que falsos ensinos estavam entrando no seio da igreja do Senhor, contaminando o povo com todo tipo de doutrina humana. Ainda que o desejo inicial de Judas escrever não fosse com o propósito de falar acerca desses falsos ensinamentos, teve que mudar o seu discurso para evitar que a igreja se corrompesse por esses falsos mestres.
Judas inicia esse versículo, demonstrando que sente grande desejo, em está escrevendo aos amados (cristãos). Nota-se que a palavra que Judas usa para designar esse anseio é poioumenoj, que significa um forte desejo que arde no coração. Judas estava com o desejo ardente em escrever aos cristãos sobre o zelo referente à salvação. É possível que o autor tivesse planejado, reunido material e talvez tivesse começado uma obra acerca das glórias da fé cristã, um tratado não polêmico, que serviria para exortar, encorajar e ensinar aos crentes. No entanto, apareceu um tema mais urgente que precisava de instrução e de zelo.
Esse zelo, spoudhn, ganhou no Novo Testamento conotação de “pressa”, “rapidez”, “urgência”, a importância dessa carta estava evidente, muitos já estavam possivelmente sendo enganados por falsas doutrinas e falsos mestres, uma vez que, ele continuou com sua motivação em escrever, afim de, lançar uma severa advertência à igreja, concernente á raiz gnóstica que estava surgindo em meio o povo de Deus. A carta precisava circular rapidamente. Nesse texto essa palavra é usada em conexão de uma carta importante.
Judas queria tratar inicialmente acerca da comum salvação dos cristãos, pois esse também era um tempo importante e fundamental para a igreja. Ele entendia que o homem precisa ser conduzido a uma transformação segundo a imagem moral de Cristo.
Só é possível transformar-se a semelhança moral de Cristo por meio do perdão dos pecados, do arrependimento, da fé que nos motiva a crer em Jesus, da santificação e da glorificação que acontecerá no dia que nos encontrarmos com o Senhor. Esse processo de transformação é contínuo, no qual, as almas humanas estão sendo transformadas dia após dia, afim de, que tenham suas mentes transformadas e experimente a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.
Para entendermos o que Judas está querendo tratar mais afundo, é importante analisarmos os pormenores existentes no texto, cada palavra é fundamental para uma boa compreensão. Por exemplo, notemos o uso que ele faz da preposição peri, esse tipo de preposição geralmente é empregada comumente com advérbios, especialmente peri e apo` que denotam significativamente algo relativo a tempo ou lugar.
Peri, tem como significado básico e local “em torno de ou circulando”, também sendo encontrados significados que designa um centro de atividade, um objeto em torno do qual gira uma ação ou um estado. Veja que Judas nesse texto faz uso da preposição como meio de ligação de uma oração a outra, onde a segunda oração está subordinada a primeira, ou seja, a salvação pela qual Judas queria tanto falar aos cristãos estava subordinada ao seu desejo ardente de escrever sobre isso.
Notemos que Judas, queria tratar de algo comum entre os irmãos, algo que eles participam juntos e que tinha grande alegria por fazer isso. Por isso, ele diz a nossa comum salvação. Comum (koinhj), na maioria dos casos que aparece principalmente nos escritos do Novo Testamento, diz respeito a “parceiro”, “companheiro”, “participante”, algo comum entre duas ou mais pessoas. No entanto, a tradução mais aceita e sensata que deve ser feita é traduzida como gerúndio, ou seja, “compartilhando”, “participando”.
Judas queria deixar bem claro a todos os irmãos que eles fazem parte de uma comunidade, onde, todas as coisas são comuns entre eles, principalmente no que concerne a salvação, uma vez que Deus não faz acepção de pessoas, mas ama a todos de maneira incondicional. Essa comum salvação é possível mediante a fé que une os cristãos universais, sem se preocupar ou medir espaço, tempo ou denominações, mas tão somente a fé genuína no Cristo Ressurreto.
Essa comunhão pela fé tem como base a pregação apostólica do Jesus histórico, andar na luz, e o sangue de Jesus que purifica de todo o pecado, e que assim exclui o orgulho sectário que nega a encarnação e representa falsamente o caráter do pecado.
Tamanha era a urgência que Judas tinha de escrever aos cristãos, que ele fala sobre essa necessidade de mudar o foco da sua conversa inicial de salvação para exortação contra falsos ensinos. Essa necessidade (a)nagkhn), anteriormente era o poder que determinava toda a realidade, o principio que dominava o universo, sendo por várias épocas atribuído a um caráter divino.
No Novo Testamento, essa palavra ganhou uma conotação bastante significativa, pois serve tanto no ativo quanto no passivo para descrever uma “compulsão” ou um “constrangimento” que não depende do emprego de força externa, e em demais ocasiões ocorrem como predicativo que significa “necessário”, no sentido de exposição do conceito da história da salvação que se sustenta mediante a crença na providencia de Deus que governa os processos e eventos da história.
Judas percebeu que era necessário exortar ao povo sobre esses falsos ensinamentos, uma vez que, se eles se proliferassem no seio da igreja, poderia causar danos irreparáveis na salvação de determinados cristãos. Por isso, a sua pressa em escrever e em fazer circular essa carta tão significativa, não apenas para aquela época, mas para todos os tempos.
Essa exortação de Judas deve ser contemporânezada, pois mais do que nunca as igrejas tem vivido debaixo de um profundo sincretismo religioso, cada vez mais crescente. Doutrinas de demônios têm sido ensinadas em determinados púlpitos, pessoas de boa fé estão sendo enganadas, é necessário que se levante homens zelosos, que lutem pela apologia da fé.
Judas então escreve aos cristãos, afim de, exortá-los a batalharem pela fé. Essa é a posição que deve ser tomada pela igreja, ela como agente de transformação social e espiritual deve resplandecer a luz de Cristo em meio à escuridão do pecado.
Essa exortação (parakalwn) significa “conclamar”, “convidar”, “consolar”, “encorajar”. A exortação sempre esteve presente em meio à vida da igreja, especialmente como a tarefa dos profetas cristãos primitivos. A exortação é uma parte quase que estereotipada (inalterável) da vida da igreja.
A era presente ganha ainda mais importância para a exortação, uma vez que a parousia pode acontecer a qualquer momento. Assim, enfatizam-se ainda mais a exigência quanto à conduta correta nesta vida. Agora é o tempo importante para as pessoas se comprovarem.
Por este motivo, Judas exorta as pessoas a andarem retamente. É necessário adverti-las que devem permanecer fiéis ao Senhor, continuando na fé, salvando-se a si mesmos.
A necessidade de dominar o presente leva à exortação no sentido de “andar condignamente”, ou seja, proporcional ao mérito da salvação dada gratuitamente por Cristo.
Por este motivo, afirma Judas que todos devem firmar-se naquilo que foi ensinado, mediante a fé em Cristo Jesus, que os cristãos, uma vez por todas ou para sempre precisam se posicionar em defesa daquilo que eles crêem
Uma vez por toda (apac), Judas diz que os cristãos em hipótese alguma podem aceitar ou se deixar enganar por outro evangelho que não esteja centralizado em Cristo. Jesus Cristo foi quem nos trouxe a revelação final de Deus, a nova aliança. Sendo assim, se maiores revelações tiverem de ser dadas, terão de estar centralizadas em Cristo.
A linguagem de Judas é altamente dogmática, altamente ortodoxa, altamente zelosa. Seu tom é o de um bispo do século IV. Homens que usaram tais palavras criam apaixonadamente em um credo. Judas cria que era necessário de uma vez por todas, aniquilar todo tipo de doutrina que não glorifica a Deus, e que surgia apenas para destruir a comunhão do povo com o seu criador.
Vemos, ele validando a sua exortação, quando ele fala por meio de quem foi entregue esses ensinamentos. Primeiramente foi entregue aos apóstolos, que transmitiram a outros, o que tinham recebido diretamente do Senhor, como também através de revelações subseqüentes, dadas pelo Espírito Santo, as quais, finalmente, vieram a fazer parte do Novo Testamento.
Judas irmão de Tiago e meio irmão de Jesus, ainda que não relacionado entre os doze apóstolos, foi testemunha ocular de muitos milagres e ensinos praticados pelo mestre. Sabia da necessidade de não deixar o povo perecer em meio a tanta informação falsa que estava recebendo naqueles dias.
Além disso, aos santos (agioj), é um título comumente aplicado aos crentes, o que mostra que devem ser santificados, pois, de outra maneira, não serão salvos, porque sem a santificação ninguém verá a Deus, conforme escreve o autor da carta aos Hebreus.
No Novo Testamento a palavra santo está diretamente ligada com inocência a respeito de alguma coisa, moralmente puro, reto: referido a Cristo, a respeito do bom comportamento do cristão e como atributo de sabedoria. Da mesma forma, os cristãos são chamados a serem santos como Ele é Santo, a serem perfeitos como Ele é Perfeito.
Dessa maneira, o cristão é fortalecido no Senhor e assim torna-se capaz de vencer toda e qualquer dificuldade espiritual e física que surja em seu caminho durante sua caminhada cristã.
Por fim, Judas diz que é por meio da fé que de uma vez por todas fora dada aos santos, que se pode combater e resistir firmes contra esses ataques hereges. Essa fé (pistei) que Judas fala, é uma fé diferenciada, pois não é uma fé falsa, hipócrita ou mentirosa, pelo contrário, é uma fé genuinamente sem hipocrisia e sincera.
No original grego a palavra pistei, significa basicamente “confiança”, que pode referir-se a uma declaração, de tal modo que tenha o significado de “depositar a fé em”, “deixar-se convencer”. Judas estava dizendo que os crentes devem depositar a sua fé em Cristo que é o autor e consumador dela.
O cristão só pode ter uma vida de vitória, à medida que ele deposita toda a sua confiança, naquele que é capaz de abençoá-lo mesmo em meio à impossibilidade humana.
Acreditamos que Judas continua ainda hoje, ensinando sobre o gnosticismo, que fere a doutrina genuinamente cristã. Muitos têm fechado os seus olhos para os constantes ataques de satanás. Ele está vindo de maneira sutil e tem destruído muitas vidas.
Essa epístola no ensinou a lutarmos e a fazermos apologia da fé. É preciso que a igreja se posicione, removendo toda a imundícia, toda idolatria, todo orgulho, todo tipo de pecado do seu meio. Se verdadeiramente estamos caminhando para a salvação que está em Cristo, então lutemos para que no fim da carreira possamos dizer, “combati o bom combate, percorri a carreira, guardei a fé e venci”. Somente uma vida de santidade ao lado de Cristo fará cada um de nós sermos não merecedores mais aptos ao recebimento da coroa dada pelo Senhor.
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